INGD aposta em sementes tolerantes à seca e furos multiuso para enfrentar os efeitos do El Niño

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) está a reforçar as acções de preparação antecipada para reduzir os impactos da seca sobre as comunidades mais vulneráveis, através da distribuição de insumos agrícolas, abertura e reabilitação de furos multiuso, conservação de alimentos e sementes, bem como transferências monetárias às famílias em situação de maior vulnerabilidade.

As medidas fazem parte da estratégia de Acções Antecipadas à Seca, que procura permitir que as comunidades se preparem antes de a escassez de água e alimentos atingir níveis críticos.

A directora de Planificação e Cooperação do INGD, Rita de Almeida, explicou estas medidas durante uma entrevista concedida à Rádio Voz Coop, destacando a necessidade de antecipar os impactos dos fenómenos climáticos e reforçar a capacidade de resistência das famílias que dependem directamente da agricultura e da pecuária.

Segundo a responsável, a lógica das acções antecipadas é simples: em vez de esperar que a seca provoque perdas significativas para iniciar a assistência, os recursos e as medidas de protecção devem chegar às comunidades enquanto ainda existe margem para reduzir os danos.

El Niño e a influência sobre a chuva em Moçambique

A preparação para episódios de seca está também relacionada com a necessidade de compreender os fenómenos climáticos que podem alterar os padrões normais de precipitação na região.

Um dos fenómenos de maior relevância é o El Niño, uma fase do sistema climático denominado El Niño-Oscilação Sul (ENSO), associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental.

Embora o fenómeno tenha origem no Oceano Pacífico, as alterações provocadas na circulação atmosférica podem repercutir-se em várias partes do mundo, incluindo o sul e outras regiões de África.

Em determinados episódios de El Niño, partes da África Austral podem registar uma redução da precipitação, temperaturas elevadas e períodos prolongados de seca. Para países como Moçambique, onde uma parte significativa das famílias rurais depende da agricultura de sequeiro, a redução das chuvas pode afectar directamente a produção alimentar, disponibilidade de água, criação de animais e rendimento das famílias.

É importante, contudo, evitar associar automaticamente toda a seca ao El Niño. As condições de chuva em Moçambique também são influenciadas por outros factores atmosféricos e oceânicos, pelo que a avaliação dos riscos deve basear-se em previsões e dados climáticos específicos para cada região.

É precisamente neste contexto que as acções antecipadas ganham importância, permitindo que as autoridades e parceiros humanitários actuem com base em previsões de risco.

Sementes de ciclo curto para zonas afectadas

Uma das principais medidas do INGD consiste no apoio aos produtores das zonas mais vulneráveis através de sementes e culturas mais adaptadas às condições de escassez de água.

Entre as culturas consideradas importantes estão a batata-doce e a mandioca, devido à sua maior tolerância às condições de aridez.

A estratégia inclui igualmente a promoção de variedades de ciclo curto, que podem permitir aos agricultores obter uma produção num período mais reduzido, sobretudo quando existe uma janela de chuva limitada.

Segundo Rita de Almeida, as famílias são incentivadas a aproveitar as zonas baixas e os recursos hídricos ainda disponíveis para realizar sementeiras de emergência.

A medida procura reduzir o risco de as famílias perderem completamente a época agrícola devido à irregularidade ou insuficiência das chuvas.

O apoio agrícola não se limita, entretanto, à distribuição de sementes. A conservação da produção e dos próprios insumos é igualmente considerada fundamental.

Neste âmbito, são promovidas tecnologias locais, incluindo celeiros melhorados e sacos herméticos, que podem ajudar a reduzir as perdas pós-colheita e conservar produtos agrícolas e sementes para utilização posterior.

Agricultura climaticamente inteligente

A abordagem do INGD inclui ainda a promoção de práticas de agricultura climaticamente inteligente e de conservação, procurando adaptar os sistemas de produção às condições de maior variabilidade climática.

A estrutura responsável pelo desenvolvimento das zonas áridas e semiáridas tem, entre outras atribuições, a promoção de culturas e variedades tolerantes à seca e com valor nutricional, assim como sistemas de captação, aproveitamento e conservação de água para diferentes finalidades.

A intenção é aumentar a capacidade das famílias rurais de produzir alimentos mesmo perante períodos de chuva insuficiente.

Furos multiuso levam água às pessoas, animais e machambas

Outra componente das acções antecipadas consiste na construção ou reabilitação de furos multiuso, sobretudo nas regiões áridas e semiáridas, incluindo zonas das províncias de Gaza e Inhambane.

De acordo com a explicação apresentada por Rita de Almeida, um furo multiuso é uma infraestrutura concebida para responder a diferentes necessidades a partir de uma mesma fonte de água.

O sistema pode disponibilizar água para consumo humano, permitir o abeberamento do gado e apoiar a produção agrícola, particularmente de hortícolas, numa área próxima.

A estratégia procura, desta forma, reduzir a pressão sobre os recursos hídricos disponíveis e proteger simultaneamente as pessoas, os animais e os meios de subsistência.

Para comunidades rurais afectadas pela seca, a existência de uma fonte de água com múltiplas utilizações pode representar uma diferença importante, principalmente quando a falta de água ameaça a sobrevivência do gado e limita a produção de alimentos.

A experiência já tem antecedentes nas intervenções de gestão do risco de desastres em Moçambique. O balanço oficial da época chuvosa e ciclónica 2023/2024 indicou que cerca de 4.550 agregados familiares beneficiaram de infra-estruturas de água, incluindo poços, furos e sistemas multifuncionais de água construídos ou reabilitados.

Transferências monetárias para famílias vulneráveis

As transferências monetárias constituem igualmente uma das ferramentas utilizadas nas acções antecipadas.

O mecanismo permite que famílias seleccionadas recebam apoio financeiro antes do agravamento da situação, dando-lhes maior flexibilidade para responder às suas necessidades prioritárias.

Segundo a responsável do INGD, o apoio é direccionado para famílias vulneráveis residentes em zonas identificadas como estando em maior risco de sofrer os efeitos de uma seca severa.

Ao contrário de uma resposta exclusivamente baseada na distribuição de bens, o dinheiro permite que cada agregado decida, dentro das suas necessidades, como utilizar o recurso disponibilizado, incluindo para a aquisição de alimentos, água ou outros produtos essenciais.

A experiência já foi aplicada em Moçambique. O balanço oficial da época 2023/2024 registou 11.800 agregados familiares vulneráveis beneficiados por subsídios mensais de 2.500 meticais durante três meses.

A principal diferença em relação a uma resposta convencional é o momento da intervenção: o objectivo é apoiar as famílias antes de os impactos da seca atingirem o nível mais grave.

Governo e parceiros reforçam preparação antecipada

A implementação das acções envolve o Governo e parceiros humanitários que integram a resposta aos riscos de desastres no país.

Entre as entidades envolvidas em diferentes intervenções estão o Programa Mundial de Alimentação (PMA), FAO, UNICEF, Visão Mundial, Save the Children e Cruz Vermelha de Moçambique, entre outros parceiros da Equipa Humanitária Nacional.

O INGD tem defendido que o financiamento das acções antecipadas deve estar disponível antes da ocorrência dos impactos mais severos.

A lógica está associada ao chamado financiamento baseado em previsões, mecanismo que procura mobilizar recursos com antecedência, a partir de indicadores e previsões de risco, para que as comunidades possam receber assistência no momento adequado.

Em Abril de 2026, o INGD e parceiros discutiram a necessidade de melhorar os mecanismos de financiamento, monitoria e avaliação das acções antecipadas.

Em Maio, durante um intercâmbio entre Moçambique e Tanzânia sobre a matéria, o INGD voltou a defender uma abordagem preventiva, considerando que agir antes dos impactos severos permite proteger vidas e meios de subsistência.

Da resposta à emergência para a prevenção

As medidas em curso representam uma mudança importante na forma de enfrentar fenómenos de progressão lenta como a seca.

Tradicionalmente, grande parte da assistência humanitária é mobilizada depois de as comunidades já terem sofrido perdas significativas. A abordagem de acções antecipadas procura inverter esta lógica, utilizando previsões meteorológicas, sistemas de aviso prévio e indicadores de risco para activar determinadas intervenções antes da crise.

No caso da seca, isso pode significar distribuir sementes antes da perda completa da época agrícola, disponibilizar água antes de os furos e fontes tradicionais secarem, transferir dinheiro antes de as famílias esgotarem as suas reservas e proteger a produção armazenada antes do aumento das necessidades alimentares.

A estratégia torna-se particularmente relevante num cenário de crescente variabilidade climática, no qual fenómenos como o El Niño podem contribuir para alterar os padrões de precipitação em determinadas regiões.

Desafio está na chegada atempada dos recursos

Apesar dos avanços, a eficácia das acções antecipadas depende da capacidade de prever os riscos com suficiente antecedência, mobilizar financiamento e fazer chegar os recursos às comunidades antes de os impactos se agravarem.

O próprio INGD reconheceu, na avaliação de intervenções anteriores, a necessidade de melhorar a qualidade, padronização, sustentabilidade e expansão das acções para mais distritos.

Para Moçambique, onde milhares de famílias dependem directamente da agricultura, pecuária e recursos naturais para a sua sobrevivência, a preparação para a seca não passa apenas pela assistência durante uma emergência.

A combinação de sementes tolerantes à seca, culturas de ciclo curto, conservação de alimentos, furos multiuso, transferências monetárias e sistemas de aviso prévio procura criar uma rede de protecção capaz de reduzir as perdas antes que a escassez se transforme numa emergência humanitária de maiores proporções.

Neste modelo, o El Niño é apenas um dos factores climáticos a considerar. A prioridade das autoridades passa por transformar a informação sobre o risco em acções concretas e atempadas, garantindo que as comunidades mais vulneráveis não tenham de esperar pela chegada da crise para receber apoio.

 

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