FÓRUM INTERNACIONAL EM MAPUTO DEFENDE ACÇÃO CONTRA O FEMINICÍDIO E A VIOLÊNCIA SEXISTA


O primeiro dia do encontro debate as causas estruturais da violência contra mulheres e raparigas e apela ao reconhecimento dos primeiros sinais de violência.

O combate ao feminicídio e à violência sexista e de género esteve no centro das discussões do primeiro dia do Fórum Internacional “Para Além do Homicídio, Compreendendo o Feminicídio e a Violência Sexista e de Género – Desafiando as Estruturas Históricas de Poder e de Dominação”, que decorre na cidade de Maputo.

Com duração de dois dias, o encontro junta representantes do Parlamento, organizações da sociedade civil, activistas, líderes religiosos, jovens, académicos, instituições públicas e outros actores sociais, com o objectivo de aprofundar o debate sobre a violência contra mulheres e raparigas.

A discussão procura, sobretudo, compreender o feminicídio para além do acto final da morte, analisando as diferentes formas de violência que podem anteceder o crime.



 Por Filipe Januário Cossa

Rosalina Nhachote DIZ QUE “O FEMINICÍDIO NÃO É UM CRIME ISOLADO”

Durante a moderação do primeiro painel, Rosalina explicou que o feminicídio deve ser compreendido dentro de uma estrutura de violência baseada no género e de relações desiguais de poder.

Segundo a interveniente, a violência pode começar dentro da família, na escola, na igreja ou na comunidade, assumindo diferentes formas até chegar, em alguns casos, à morte da mulher.

“O feminicídio não é um crime isolado, não é um facto isolado. Ele está dentro de uma estrutura de violência baseada no género, que começa nas casas, nas famílias, na escola, na igreja, e que vai transcorrendo ao longo do tempo, geralmente chegando à morte dessas mulheres.”

Inachota considera ainda que o feminicídio apresenta características que devem ser analisadas de forma diferente do homicídio comum, sobretudo quando existe uma relação de afecto, proximidade ou intimidade entre a vítima e o agressor.

 

 

JUDITE MACUÁCUA DEFENDE QUE SE DEVE COMBATER A VIOLÊNCIA ANTES DA MORTE

A deputada da Assembleia da República e activista política, Judite Macuácua, destacou a necessidade de a sociedade actuar perante os primeiros sinais de violência doméstica.

A interveniente chamou a atenção para comportamentos que, muitas vezes, são normalizados dentro das relações, como o controlo excessivo, o isolamento, as agressões verbais e a violência psicológica.

Segundo Judite, a normalização destes comportamentos pode contribuir para a progressão da violência.

A activista defendeu, por isso, uma intervenção antecipada, antes que a violência psicológica ou verbal evolua para agressões físicas e, posteriormente, para situações de maior gravidade.

“Todos os sinais devem chamar a nossa atenção.”

Para Judite Macuacua, a prevenção deve envolver não apenas as mulheres, mas também os homens, as famílias e as comunidades.

“Não só as mulheres, mas principalmente os homens, porque as mulheres estão a ser mortas, e ninguém deve ser morto por causa de ser mulher.”

 

NIVALDA NHALIVILO: SOCIEDADE CIVIL NO CENTRO DO DEBATE

Por seu turno, Nivalda Nhalivilo, da ASCHA, integra o grupo de intervenientes que defendem uma maior participação da sociedade civil na prevenção e combate à violência baseada no género.

A participação das organizações da sociedade civil no fórum é apresentada como parte de um processo de mobilização e diálogo com as comunidades e os órgãos de tomada de decisão.

A perspectiva defendida é a de que as preocupações das comunidades devem chegar aos espaços onde são definidas políticas públicas e respostas institucionais.

O fórum surge, assim, como uma plataforma para aproximar as experiências das comunidades, das organizações sociais, do Parlamento e de outras instituições.

 

ELÍSIO DE SOUSA TAMBÉM PARTICIPANTE DESTACA O PAPEL DO PARLAMENTO E DA LEGISLAÇÃO

O deputado da Assembleia da República, Elísio de Sousa, é outro dos intervenientes no fórum, representando o espaço parlamentar no debate sobre a violência baseada no género e o feminicídio.

A discussão parlamentar está relacionada com a necessidade de avaliar a eficácia das leis existentes e identificar mecanismos que possam reforçar a prevenção e a responsabilização em casos de violência contra mulheres.

Entre as questões levantadas no fórum está a possibilidade de aperfeiçoar a legislação existente ou avançar para um instrumento legal específico sobre feminicídio, matéria que deverá continuar em debate entre os diferentes sectores.

 

“O AMOR NÃO MATA”

Um dos momentos de maior destaque do debate foi a crítica à normalização da violência dentro das relações afectivas.

Foi defendida a necessidade de desconstruir discursos segundo os quais agressões físicas, controlo ou ciúmes constituem manifestações de amor.

“O amor não mata, o amor não leva à morte, o amor não bate.”

Os participantes alertaram que a violência doméstica pode apresentar sinais muito antes de chegar à agressão física ou ao feminicídio.

Por isso, familiares, amigos, vizinhos e membros das comunidades são chamados a não ignorar relatos de violência apresentados pelas vítimas.

 

EDUCAÇÃO E PREVENÇÃO

Outro eixo do primeiro dia foi a necessidade de reforçar a educação sobre violência baseada no género.

Os participantes defendem que as escolas e outras instituições de formação devem desempenhar um papel mais activo na promoção de relações baseadas no respeito, na igualdade e na não-violência.

A prevenção deve envolver igualmente as comunidades, instituições religiosas, organizações da sociedade civil, homens, mulheres e jovens.

Para o deputado da Assembleia da República, Elísio de Sousa, o Parlamento deve continuar a desempenhar um papel activo nas discussões sobre os mecanismos legais e institucionais de resposta ao fenómeno.

Entre as questões em debate está a necessidade de reforçar a legislação, melhorar a prevenção e garantir respostas mais eficazes perante situações de violência.

Os participantes defendem ainda uma maior educação sobre violência baseada no género nas escolas e nas comunidades.

Uma das mensagens deixadas no primeiro dia do fórum é clara:

“O amor não mata. O amor não bate.”

O Fórum Internacional prossegue na cidade de Maputo, procurando transformar o debate sobre feminicídio e violência sexista e de género em propostas e recomendações para a acção.

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