Por Agostinho Muchave | Rádio Voz Coop
O futebol moçambicano encontra-se de luto após a confirmação da morte de Aly Mahomed Hassane, um dos nomes mais emblemáticos da história do desporto nacional. Hassane, antigo internacional pelos Mambas e treinador, faleceu na tarde desta terça-feira, 13 de janeiro de 2026, aos 61 anos, vítima de doença prolongada, no Hospital Central de Maputo, onde estava internado há vários dias.
A sua carreira e o impacto que teve dentro e fora de campo traçam um percurso que merece ser recontado com o respeito que lhe é devido, pela importância que o seu nome representa no futebol moçambicano e na memória dos amantes da bola em todo o país.
Uma carreira construída em Moçambique e em Portugal
Nascido a 4 de junho de 1964 em Maputo, Aly Mahomed Hassane iniciou os seus passos no futebol ainda jovem, jogando no extinto Clube Operário da Texlom antes de se destacar no Grupo Desportivo de Maputo, uma das instituições mais antigas e respeitadas do campeonato nacional.
As exibições pelo Desportivo de Maputo foram suficientes para abrir portas no futebol europeu. Após ser observado por clubes portugueses, realizou testes no Benfica, mas foi no Sporting Clube de Portugal que acabou por assinar contrato, chegando ao clube leonino no decorrer da temporada 1988/1989.
Pelo Sporting CP, Hassane permaneceu por três temporadas, onde disputou cerca de 27 jogos oficiais até 1991. Esta passagem marcou-o de forma indelével como um dos poucos jogadores moçambicanos a representar o clube em tempos modernos e simboliza o prestígio que conquistou fora das fronteiras nacionais.
Depois de Alvalade, a carreira continuou em Portugal, com passagens por clubes como Vitória de Setúbal (1991/92), Amora (1992/93), Académico de Viseu (1993-1995) e CD Torres Novas (1995/96), completando uma longa trajetória no futebol luso antes de regressar definitivamente a Moçambique para encerrar a sua carreira como jogador.
Apesar de não ter sido um número elevado de internacionalizações, Hassane vestiu a camisola da Seleção Nacional de Moçambique, os Mambas, entre 1989 e 1996, incluindo a participação na Taça das Nações Africanas de 1996, um dos maiores palcos do futebol continental.
Momentos que marcaram a sua carreira
Um dos episódios mais lembrados da carreira de Hassane foi o facto de ter sido o único jogador moçambicano a defrontar Diego Armando Maradona em competições europeias, quando o Sporting se confrontou com o Nápoles nas competições UEFA em 1989, num confronto que ficou marcado na história de Moçambique e nos arquivos do futebol lusitano.
Este duelo, além de reconhecido pelo valor desportivo, simboliza a extraordinária capacidade de um jogador moçambicano de competir no mais alto nível, perante um dos maiores ícones do futebol mundial.
Da formação à liderança técnica
Após pendurar as chuteiras, Hassane dedicou-se ao treino e à formação de jogadores em Moçambique. Ele foi treinador da Liga Desportiva de Maputo por sete anos, período em que contribuiu para o desenvolvimento de talentos locais e para a estruturação técnica do clube, antes de orientar o Grupo Desportivo Mahafil, continuando a sua missão de transferir experiência e disciplina aos atletas nacionais.
No final da sua carreira, manteve-se ligado ao futebol como comentarista desportivo em televisão, participando em programas como “Ao Ataque” e “Mais Desporto”, onde partilhou a sua visão do jogo e fortaleceu a sua imagem junto de novas gerações de fãs do futebol.
Reacções e reconhecimento
A notícia da sua morte mereceu homenagens de clubes e instituições desportivas. O Sporting Clube de Portugal publicou uma nota oficial de pesar, saudando o seu contributo enquanto atleta e estendendo condolências à família e amigos do falecido. “O Sporting Clube de Portugal manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento do seu ex-futebolista Ali Hassan”, lê-se no comunicado.
Em Moçambique, a comunidade desportiva lamentou igualmente a perda de um homem que não só representou o país em vários palcos internacionais, como também se dedicou a elevar o nível de competitividade dos nossos clubes e jogadores.
O legado de um embaixador do futebol moçambicano
Aly Mahomed Hassane deixa um legado que ultrapassa números e estatísticas. Foi um verdadeiro embaixador do futebol moçambicano, cuja carreira mostrou que atletas nacionais podem afirmar-se em palcos exigentes e conquistar o respeito de adeptos e profissionais em diferentes contextos.
No plano interno, o seu trabalho como treinador e formador contribuiu para fortalecer as bases do jogo no país, incentivando jovens talentos a perseguirem sonhos muitas vezes considerados distantes.
A sua morte representa uma perda irreparável para o desporto nacional, mas a sua história e exemplos de dedicação, disciplina e paixão pelo futebol permanecerão vivos na memória dos moçambicanos e dos amantes do futebol em todo o mundo.
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