No âmbito da mobilização dos 16 Dias de Activismo contra a Violência Baseada no Género (VBG), o distrito de Marracuene, na província de Maputo, acolheu uma importante actividade de sensibilização na zona residencial de Nditxi, actividade promovida pela SOCODEVI Canadá, no âmbito do projecto de empoderamento económico das mulheres rurais, implementado nas províncias de Maputo e Gaza, com apoio do Governo do Canadá, em parceria com o Governo de Moçambique.
A iniciativa decorreu nas vésperas do encerramento da campanha global e
centrou-se numa ameaça silenciosa, mas cada vez mais presente: o crime de
violência digital contra mulheres e raparigas.
A actividade assumiu o formato de uma Feira de Serviços e
Sensibilização, reunindo diferentes instituições públicas e parceiras, com
destaque para o IPAJ – Instituto de Patrocínio e Assistência Jurídica,
que chamou atenção para a urgência de uma abordagem preventiva e comunitária
face ao crescimento deste tipo de crime.
IPAJ alerta: Prevenção é a Chave Contra a Violência Digital
Intervindo durante a actividade, Felícia Daniel Cinete,
representante do IPAJ, sublinhou que o contacto directo com as comunidades
continua a ser uma das ferramentas mais eficazes no combate à violência baseada
no género, sobretudo nas suas novas formas, como a violência digital.
Segundo Cinete, esta tipologia de crime exige, antes de mais, consciência
e prevenção, particularmente no uso do telemóvel e das redes sociais, que
se tornaram o principal meio de actuação dos agressores.
“É preciso uma prevenção, em primeiro lugar, por parte delas, na medida
em que devem analisar aquilo que partilham e a forma como utilizam o telemóvel,
porque, na maior parte dos casos, tudo começa no telemóvel.”
A sensibilização incidiu sobre práticas de autoprotecção digital,
incluindo o cuidado no registo, armazenamento e partilha de imagens e
informações pessoais. A representante esclareceu que, mesmo quando o agressor
não utiliza material produzido pela própria vítima, o crime continua a existir
e a ser punível por lei.
Felícia Cinete considerou positiva a presença do IPAJ na comunidade,
afirmando que o momento serviu para esclarecer que a violência digital não é
uma situação banal ou privada, mas sim um crime.
“Foi muito importante estarmos aqui para divulgar esta informação, para
deixar claro que isto é crime.”
O desconhecimento, alertou, tem contribuído para a normalização da
violência digital, levando muitas pessoas a encararem estes actos como algo
simples ou inevitável.
“Muitas vezes pensa-se que é uma coisa simples, mas trata-se de um crime
digital contra a mulher e a rapariga, um crime que está a crescer e a ganhar
uma repercussão preocupante na sociedade.”
Apelo à Denúncia e ao Acesso à Justiça
Para além da prevenção, o IPAZ reforçou a importância da denúncia
como instrumento fundamental para travar a impunidade. Felícia Cinete apelou à
comunidade para que perca o medo de procurar os serviços de justiça, lembrando
que existem instituições vocacionadas para apoiar as vítimas.
“A primeira mensagem é tirar o medo de denunciar. A comunidade precisa
de ganhar coragem para procurar os serviços de justiça, porque são esses
serviços que podem ajudar a vítima a alcançar justiça.”
A representante reconheceu que muitas vítimas optam pelo silêncio,
receando julgamentos sociais ou represálias, mas insistiu que o isolamento
apenas favorece o agressor.
“Muitas vezes a vítima isola-se, preocupa-se com o que os outros vão
dizer. Mas o crime já foi cometido. O que resta é procurar justiça, e existem
instituições próprias para isso.”
A Voz da Comunidade: Transtornos, Exposição e Casos de Suicídio
A actividade foi bem acolhida pela população local. Milton dos Santos
Nhancale, residente do bairro Quarteirão 13, manifestou satisfação pela
presença das autoridades e parceiros no terreno, sublinhando que a iniciativa
transmitiu à comunidade um sentimento de inclusão e atenção por parte do
Estado.
Segundo o jovem, a feira mostrou que a população de Nditxi não está
esquecida e permitiu o acesso a diversos serviços essenciais, incluindo o registo
de crianças e atendimento médico.
O tema da violência digital, porém, foi o que mais o marcou, pela sua
gravidade e pelas consequências que tem provocado em todo o país.
“A violência digital é um crime que tem assolado o país nos últimos
tempos e tem causado transtornos enormes.”
Milton Nhancale, destacou os impactos psicológicos e sociais da
exposição indevida nas redes sociais, apontando casos extremos de sofrimento
entre mulheres vítimas deste tipo de crime.
“Algumas mulheres acabam por se suicidar quando vêem o seu corpo exposto
nas redes sociais, sobretudo quando isso acontece num contexto de confiança, de
amor e parceria.”
Para o residente, a forma como o tema foi abordado na comunidade foi
clara e educativa, deixando ensinamentos que pretende partilhar com outros
jovens e famílias do bairro.
“Isso chamou muito a minha atenção. Levo daqui uma experiência e vou
aconselhar os outros, para que possamos parar com este mal que afecta a nossa
sociedade.”
Para além da violência digital, a feira permitiu igualmente o acesso a
informações relevantes sobre saúde pública, com destaque para a
prevenção do HIV, reforçando o carácter integrado da iniciativa.
Recordar que esta actividade é promovida pela SOCODEVI Canadá, no âmbito
do projecto de empoderamento económico das mulheres rurais, implementado nas
províncias de Maputo e Gaza, com apoio do Governo do Canadá, em parceria com o
Governo de Moçambique.

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