Falta de tempo ou prioridade? Debate em Chamaculo expõe os desafios da participação parental na educação


Um debate radiofónico realizado na Escola Primária Completa Mista de Chamaculo
trouxe à tona a resistência persistente e as dificuldades enfrentadas pelos pais e encarregados de educação em participarem activamente na vida escolar dos seus filhos.

A justificação mais recorrente avançada pelos participantes foi a falta de tempo, resultante de ocupações profissionais e outras preocupações quotidianas. Porém, o debate expôs uma contradição entre a falta de tempo e a falta de empenho, com alguns intervenientes a sublinhar que a presença activa é um "bem necessário" que exige priorização consciente.

Estas preocupações foram levantadas no dia 13 de Setembro aquando da realização de mais uma edição do debate comunitário no âmbito do Projecto Melhorando o Desempenho Escolar das crianças nas classes iniciais na cidade de Maputo, pela Rádio Voz Coop em parceria com o Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil(CESC) financiado pela Fundação Pestalozzi.

A Perspectiva da Ocupação e a Necessidade de Marcação


A ausência dos pais não é, na maioria das vezes, intencional, mas consequência das suas obrigações, segundo testemunhos recolhidos. O Sr. João António Madeca, pai presente no encontro, reconheceu a falta de tempo como um factor, mas destacou que, sempre que a escola "marca data," os pais tentam fazer o "meio possível para vir". Sublinhou que a sua participação visa replicar a educação em casa, ensinando o filho a respeitar os professores e a aplicar os conhecimentos recebidos.

Ainda assim, a justificação do tempo foi repetida ao longo do debate: "As pessoas às vezes é por causa de tempo, não têm tempo para ficar em casa estar com os filhos". Uma mãe confirmou a dificuldade, explicando que, embora costume participar, por vezes não consegue, porque sai cedo de casa para o trabalho.

"Sim, ninguém recusa, mas às vezes é por causa do tempo. Cada pessoa está ocupada, né?"

Esforço como Estratégia e Crítica ao Sistema


Entre os participantes, houve também quem contestasse a explicação centrada apenas na falta de tempo. Uma mãe, identificada como Márcia Sarang, discordou, defendendo que é necessário "dar-se tempo também para essa actividade", pois "é preciso fazer esforço".

Ela descreveu o esforço como a sua estratégia, relatando que, independentemente da hora a que chega a casa, dedica tempo a ver os TPCs (Trabalhos Para Casa) do filho, demonstrando que é possível envolver-se apesar das exigências do quotidiano.

"Bem, a recomendação não seria simples, né? É menos fácil porque é preciso fazer esforço. [...] Para mim não importa a hora que eu chego, não importa o que estou a fazer, se eu tenho que parar por uma hora, eu dedico esse tempo por uma hora."

Márcia Sarang apontou ainda deficiências no sistema educacional, defendendo que a melhoria da qualidade de ensino exige esforços conjuntos entre "professor, aluno, pais e consequentemente a sociedade".

O Impacto da Ausência e as Dificuldades da Escola

A escola enfrenta sérias dificuldades em assegurar a presença dos encarregados de educação. Muitos contactos telefónicos estão "fora de área", e alguns pais, em vez de comparecerem pessoalmente, enviam crianças ou adolescentes para resolver assuntos importantes. Para muitos, "a escola é um lugar para deixar a criança e a escola vai fazer tudo", esquecendo-se da sua própria responsabilidade educativa.

As consequências desta ausência foram identificadas como prejudiciais:

  1. Aluno: O aproveitamento escolar "tende a ser muito baixo," e as competências necessárias não são adquiridas, pois o acompanhamento em casa não existe.

  2. Professor: Torna-se difícil lidar com alunos que regressam sem realizar os trabalhos, o que resulta em "retrocesso" e obriga o professor a repetir matérias.

  3. Encarregado: O pai perde a oportunidade de conhecer melhor o próprio filho, o que foi considerado "muito perigoso e prejudicial".

"Começando pelo próprio aluno, o aproveitamento tende a ser muito baixo. As competências que eram necessárias que o aluno adquirisse, ele não adquire, porque ele está por si só quando está em casa, só tem acompanhamento quando está na escola."

Estratégias de Mitigação e Apelos Finais

Diante da ausência familiar, os professores afirmaram sentir a necessidade de "abraçar essas crianças como se fossem nossas," evitando punições, uma vez que "a criança não tem culpa". Foram partilhadas estratégias como a recapitulação das matérias e a integração de alunos com dificuldades junto de colegas mais avançados.

O apelo final foi dirigido sobretudo aos pais, para que sejam mais presentes e participativos.

"Não podemos pensar que a escola vai fazer tudo, porque a escola não é capaz de fazer tudo. A escola é apenas uma parte de um todo. É preciso que todos nós colaboremos para podermos ajudar as crianças a aprender."

Aos professores, a recomendação foi a de não desanimar nem abandonar as crianças com mais dificuldades, mas tratá-las como se fossem seus próprios filhos, garantindo-lhes o melhor acompanhamento possível.

O debate encerrou-se com o reconhecimento da importância desta "corrente de ligação entre o pai e o professor".


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